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Ser ou não ser - 03/12/2009
Recebi um telefonema que mais uma vez me fez perceber que, em pleno século XXI, ainda há preconceito das pessoas em relação a nossa classe ou o equívoco em relação à mesma. A senhora pedia um orçamento de alguns dançarinos para uma festa de aniversario de uma dama que completaria 80 anos e sempre foi apaixonada pela dança de salão. Trata-se de um serviço árduo e difícil, como já citei em outro texto, mas faz parte do contexto da dança a dois. A indicação foi feita por uma aluna muito querida, assim passei o valor do investimento com desconto. É lógico que a contratante pechinchou, por sinal está no seu direito. Não satisfeita com a minha posição de não abaixar o preço do serviço a prestar, começou a dizer que já dançou anos atrás com um professor fulano de tal da antiga gafieira. Comecei a achar esquisito, porque ela de cara já não tinha entrando em contato com esta pessoa que foi o seu mestre. Por sinal, o instrutor citado já tinha sido meu professor no Estrela, pessoa humilde de sorriso largo, fera no estilo de dançar a gafieira antiga, negro de estatura mediana, um doce de ser humano. Fiquei imaginando que ela teria perdido o telefone ou realmente ela gostaria da dança mais atualizada. A pergunta seguinte foi terrível: os dançarinos são bonitos e de boa aparência? O que isto significa? A beleza externa é tão relativa. Expliquei para ela, já um pouco nervosa, que o importante era se os dançarinos teriam competência na arte de dançar a dois, não é mesmo? A outra pergunta dela foi pertinente, qual era o traje que eles usariam? Respondi que poderia ser terno, uniforme da empresa ou jeans que isto dependia da proposta da festa. Recomendei o uniforme, pois este diferencia os dançarinos dos convidados, o que facilita o trabalho dos mesmos. Perguntou se teria também dançarinas, a minha resposta foi que dependeria dela. Que não era muito comum, pois normalmente os homens em geral são muitos tímidos e a maioria não aceita ser abordado por uma dama para dançar, mas que poderia arrumar sim. Disse que não estava muito preocupada com isso e sua outra pergunta me fez espumar de raiva. Então estes dançarinos poderiam fazer uma apresentação de dança? “Querida”, não estou entendendo, você quer a dançarina para que os dançarinos possam fazer apresentação? Ela gaguejou e respondeu, porque não pode? Claro que pode, mas a principio o seu orçamento foi para dançarinos que farão par com as suas convidadas e não para apresentarem um show, entende? Bem cínica na voz ela respondeu: “Ah! Faz diferença?” Perdi a compostura e, sabendo que a “ex” contratante é dona de bufê, respondi sem nenhuma classe: “Não faz diferença nenhuma e neste dia eu também quero ver na festa o seu maitre fazendo papel de copeiro, o copeiro fazendo papel de garçom e o garçom fazendo papel de recepcionista, ok?” Tenho plena consciência que agi de forma errada - vou colocar a culpa da minha falta de educação na TPM (risos). Mas venhamos e convenhamos: explicar ao telefone que serviço de dançarino é um, de apresentação é outro e que o preço dado não inclui um pacote, não é para qualquer um, ainda mais quando sentimos a esperteza do outro lado. Esqueci de contar que em algum momento ela questionou se os dançarinos eram professores e ficou horrorizada ao saber que hoje em dia pouquíssimos instrutores se sujeitam a este serviço. Analisando agora friamente a situação, tirando o jeitinho brasileiro, cabe a nós mudar uma conotação equivocada de nossa profissão. Talvez a mulher não tenha culpa nenhuma e tudo seja um reflexo da nossa própria cultura. Sabemos muito bem que o nosso trabalho não é exato. Existem ótimos professores que não são bons dançarinos para show, existem ótimos dançarinos para show que são péssimos instrutores. Existem dançarinos que só curtem a arte de dançar a dois e não vivem desta profissão, existem artistas completos que são dançarinos para show, coreógrafos, professores e dançarinos de baile, enfim talvez seja isto o motivo de grande confusão. Felizmente ou infelizmente não atendi esta cliente, empresarialmente falando não foi correta a minha postura, levei o assunto para o lado pessoal. Vivendo e aprendendo. ELAINE REIS (ACADEMIA PÉ DE VALSA) BH – MG
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